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LANÇAMENTO = 23 de setembro de 2020 
DIREÇÃO = Harry Bradbeer 
ROTEIRO = Jack Thorne 
ELENCO = Millie Bobby Brown; Henry Cavill; Helena Bonham Carter; Louis Partridge…

SINOPSE: Na história, Enola Holmes, de 16 anos, entra em uma aventura para encontrar sua mãe desaparecida. Ao longo do filme, a adolescente precisa despistar seu irmão Sherlock, já famoso por seu trabalho e mais sentimental.

AUTORA DO TEXTO: Thais R. de Freitas

TWITTER: https://twitter.com/Ruivaa?s=09

LETTERBOXD: https://letterboxd.com/thaisrfr

Realmente o tempo passa numa velocidade assustadora. E eis que Millie Bobby Brown, a queridinha dos aficcionados pela série Stranger Things, cresceu, chegou na adolescência e, agora, já almeja vôos próprios nesse trabalho em que é a atriz principal do filme produzido também pela Netflix, Enola Holmes.

A história que conta com a direção de Harry Bradbeer, de Fleabag, consiste em ter, como foco, a irmã adolescente de Sherlock Holmes - o famoso detetive da literatura britânica. Baseado no primeiro livro da série “Os Mistérios de Enola Holmes” – de autoria de Nancy Springer -, intitulado “O Caso do Marquês Desaparecido”, o filme apresenta um elenco coadjuvante forte, marcando uma nova fase da atriz prodígio, nos filmes de longa-metragem.  



No dia de seu aniversário de 16 anos, a mãe de Enola e Sherlock Holmes (Henry Cavill), interpretada por Helena Bonham-Carter, desaparece da casa da família no interior do Reino Unido, sem dar qualquer explicação.  O sumiço deixa apenas algumas pistas enigmáticas em aberto e uma quantia de dinheiro para a menina. Diante da situação, os irmãos da senhorita Holmes, que se encontravam morando distante, retornam para decidirem o que fazer e assumirem responsabilidade quanto ao futuro da irmã caçula. Temos, a partir disso, um conflito familiar sobre as escolhas do futuro da menina, que serve de chama motriz para engatar o resto da história. Os irmãos decidem enviar a menina para uma escola de boas maneiras e etiquetas para damas da sociedade, fato que gera revolta e descontentamento na adolescente. Sempre muito astuta, livre e incentivada a ser independente, numa época da Inglaterra Vitoriana, Enola não aceita a decisão sobre o seu destino e opta por partir para Londres em busca do paradeiro de sua mãe. Na sua jornada de fuga, conhece outro adolescente em apuros como ela, um jovem lorde (Sam Claflin) envolvido em sérios problemas, o qual acaba a envolvendo em uma história de mistério e conspiração, dando lugar para um despertar do instinto investigativo presente no sangue da família da menina.

Esteticamente impecável na fotografia e cenários, Enola Holmes é aquele tipo de filme perfeito para dias em que nós precisamos relaxar e descontrair. Nós logo pensamos em películas de sessão da tarde, principalmente daquelas produzidas na época que filmes deste estilo mais leve proporcionavam grandes ícones pops, presentes no inconsciente coletivo de várias gerações até hoje. A história chega a ser fofa. Tem veia feminista sutil, mas presente o suficiente para plantar a “sementinha” do pensamento nas gerações que estão amadurecendo. Programa perfeito para assistir em família.



Millie mostra talento para um futuro promissor, o qual deve ir para além de atuações em séries e formatos específicos como o de seu trabalho mais famoso, como a Eleven de Stranger Things. Atua com leveza e frescor juvenil que encanta e prende, além de conseguir entreter o telespectador na medida certa. O forte elenco de atores coadjuvantes composto pelo tarimbado Henry Cavill (rosto conhecido de Superman), Louis Partridge, Sam Claflin (Simplesmente Acontece) e a inquestionável Helena Bonham Carter entregam atuações positvas e competentes.

Apesar de todos os elogios tecidos, a própria história em si contribui para a manutenção de um nível geral mais para o mediano. O sucesso de audiência garantido para plataforma, já faz a Netflix pensar em transformar Enola Holmes em Franquia. Há material suficiente para as adaptações, visto que, ao todo, foram 5 livros produzidos com a temática da história da jovem irmã de Sherlock. Caso ocorra, vai ser interessante seguir acompanhando o amadurecimento profissional de Millie diante de nossas telas.


REFERÊNCIAS



LANÇAMENTO: 18 de junho de 2020 
DIREÇÃO: Lorcan Finnegan 
ROTEIRO: Garret Shanley e Lorcan Finnegan
ELENCO: Jesse Eisenberg, Imogen Poots, Jonathan Aris...

 

SINOPSE: Enquanto procuram pela casa ideal para que possam morar juntos, um casal se vê preso em um complicado labirinto feito de moradas idênticas entre si. Quando eles percebem que o local não é nada do que imaginavam, pode ser tarde demais.

 

AUTORA do TEXTO: Nana Pelissari

 

Uma sequência curiosa, que a princípio pode parecer uma alegoria meramente ilustrativa, criando uma associação à ideia do viveiro, dá início ao filme. Em um tom documental, assistimos à breve colocação sobre o pássaro que, movido pela sua natureza e instinto, tem o costume de invadir o ninho alheio, jogando para fora os filhotes da outra espécie que este abrigava. Passada essa introdução, somos apresentados ao casal protagonista Gemma - uma professora de jardim de infância - e Tom - um zelador cuidando do jardim da escola. Simples e leves, são pessoas reais levando vidas comuns, aparentemente fluidas e tranquilas. Assim, pretendem se casar e estão em busca de uma casa para viverem juntos, e esta busca dá início a trama que nos surpreende.



Nada é por acaso ou possui apenas uma interpretação. Nesse sentido, o excêntrico corretor de imóveis que os recebe é o personagem que abre caminho para o mundo de bizarrices e estranhezas que vem a seguir, para o qual são atraídos e se tornam cativos. Num misto de desconforto, certo interesse e benevolência para com aquela figura peculiar, acatam a visita ao loteamento sugerido. Seguem com ele até um conjunto de ruas e casas que, de tão ordinárias e repetidas à exaustão, fazem do lugar um espaço inusitado. Lá, são levados até o interior do imóvel à venda, onde são abandonados e de onde não conseguem mais sair.


Estão presos a um lugar onde tudo é perfeitamente limpo, simétrico e sem excessos. As construções são todas iguais, extremamente regulares e se sucedem a perder de vista. O céu é claro e azul, com nuvens bem definidas, de forma e disposição regulares, a grama é verde e aparada - nada parece aleatório, orgânico ou espontâneo. A monotonia que esta artificialidade traz, e que também se faz presente nas cores, é gritante e, à medida que o tempo corre, fica cada vez mais sufocante. O espaço cênico é claustrofóbico. A história, então, se desenrola reproduzindo a sensação dessa prisão cíclica, repetitiva, infinita e sem saída.



O terror psicológico está impresso no clima do filme, que também tange o humor e o drama, além de soar como uma ficção científica, compondo uma mescla interessante de gêneros. Há um mistério, queremos entender o que está acontecendo com eles, o que é aquele lugar e por que estão ali. A situação angustiante promove o suspense, ao mesmo tempo que constrói uma metáfora através do seu aspecto surreal.

 

Crítico e reflexivo, repleto de simbolismos e entrelinhas, é um filme intrigante, mas que pode ser cansativo, por se prender, mesmo que propositalmente, a uma rotina de sucessões. Peca também, talvez, por algumas falhas no seu desenvolvimento, que poderia ser mais profundo ou mais implícito. Para quem curte assistir produções ao estilo Black Mirror e afins, o filme é uma indicação válida.

 

REFERÊNCIAS


TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=pcRYNa4MgbQ

LANÇAMENTO: 04 de setembro de 2020 
DIREÇÃO: Charlie Kaufman 
ROTEIRO: Charlie Kaufman e Iain Reid 
ELENCO: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette...


SINOPSE: Apesar de ter dúvidas sobre seu relacionamento, uma jovem (Jessie Buckley) faz uma viagem com seu novo namorado (Jesse Plemons) para a fazenda da família dele. Isolados na casa com os pais de Jake (Toni Collette e David Thewlis) durante uma tempestade de neve, a jovem começa a questionar tudo o que imaginava saber sobre seu namorado, o mundo e si mesma.


AUTOR do TEXTO: Eliezer Lugarini


Em algum outro texto de minha autoria, recentemente discorri algo sobre os efeitos do risco no cinema. Naquela oportunidade, me referia ao risco físico de acidentes, nesta, vou me apropriar da minha ideia anterior para o risco da proposta narrativa no cinema.

 

Já se foi a época em que a busca incessante no cinema era pelo novo, por ousar, por encontrar formas narrativas diferentes das usuais, quebrar paradigmas ou mesmo referenciar o próprio “eu” do artista em jornadas de autoconhecimento. Refiro-me ao cinema de vanguarda, aquele que enfureceu os anos 50 e 60 com a chegada da novelle-vague francesa - com Godard literalmente detonando a instituição da narrativa clássica -, com o cinema novo no Brasil, com as diversas “new-waves” que se espalharam pelo mundo (Inglaterra, Republica Tcheca, Japão entre outros), à marginalização e à completa radicalização do cinema underground nova-iorquino, ou mesmo do cinema marginal brasileiro.

 


Tudo isso, virou história, foi colocado nos livros de história da arte e de entendimento do cinema e, após os anos 1980, foi praticamente esquecido. Não se pensa mais em vanguarda desde então. Assim, exceto pelo Dogma 95, não houve mais vanguardismo no cinema. Atualmente, em geral, qualquer artista que ouse minimamente mexer com a “instituição sagrada” do começo, meio e fim e que fuja da clareza objetiva de seu significado corre o risco de automaticamente ser taxado de presunçoso, pretensioso ou pedante.  

 

Charlie Kaufman é um dos poucos - diria um dos raros exemplos atuais de um artista inconformado. Inconformado, no sentido de que suas viagens pessoais simplesmente não bastam, o artista precisa encontrar o novo além de transparecer e espelhar sua alma em seus filmes. E ele o faz, sem nunca cair em obviedades.


 

Kaufman praticamente condensa toda sua carreira em “Estou Pensando Em Acabar Com Tudo”. Aqui ele discorre sobre identidade, memória, tempo, envelhecimento, arrependimento, morte, suicídio, solidão e depressão, sem nunca esquecer de seu trabalho metalinguístico costumeiro, a respeito da plasticidade do cinema em sua relação de beleza x feiura. Seu filme é um sonho filmado dos mais emblemáticos do cinema recente, que recorre demais ao cinema de Alain Resnais e ao que se fazia nos anos 60, mas claro do jeito Kaufman de ser.

 

Kaufman arrisca em um filme de alto valor simbólico. Suas simbologias dão vida a um filme que fatalmente será visto por boa parte da audiência como isento de história. Não se engane, caro leitor, tudo no filme de Kaufman tem significado e representa algo na viagem de Jake (Jesse Plemons) e de sua namorada (Jessie Buckley) - desde a estrada vazia perfazendo a jornada em que ambos adentram, jornada solitária, fria e nebulosa, num embate entre memória e desejo, entre ficção e realidade, entre a vontade de seguir inerte num caminho sem volta ou acabar com tudo.  Kaufman entrega um filme muito pessoal, onde o próprio artista está sendo colocado diante de um espelho - note como o personagem é sempre visto através de um vidro. Seu filme é habitado por fantasmas, mas no fundo todos aqueles personagens são apenas um: o Charlie Kaufman que teme o próprio Charlie Kaufman.

 

De certa forma, fico até um pouco preocupado do Kaufman resolver tirar a própria vida, em razão de sua angústia e tristeza constante com o mundo, algo que fica claro em toda sua filmografia, ou mesmo que “Estou Pensando em Acabar com Tudo” seja, de certo modo, seu testamento cinematográfico.

 

Minha torcida é óbvia para que esta leitura seja exclusivamente no âmbito artístico, já que o americano é um dos poucos vanguardistas e inovadores vivos do cinema - um verdadeiro gênio. E que o único risco que Kaufman corra seja apenas o de ser mal compreendido, coisa que, convenhamos, é facílimo de acontecer hoje em dia.


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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=TLDLLzYecGw
LANÇAMENTO: 5 de junho de 2020 
DIREÇÃO: Josephine Decker 
ROTEIRO: Sarah Gubbins 
ELENCO: Elisabeth Moss; Logan Lerman; Michael Stuhlbarg, Odessa Young...

 

SINOPSE: Um casal se muda pra viver com uma escritora (Elisabeth Moss) e seu marido professor (Michael Stuhlbarg) e acabam envolvidos numa trama que serve de inspiração pro novo livro de suspense da autora.

 

AUTOR do TEXTO: Ed Kalume

 

Uma escritora, dentro de um relacionamento abusivo, hospeda um jovem casal e se utiliza dele como inspiração para sua nova obra. Com esse argumento, Josephine Decker realiza um trabalho em que temas como feminismo, relacionamento abusivo e inspiração são explorados.

 

Um marido não tão célebre que, não conseguindo viver na sombra de sua esposa, suga dela toda luz que pode. Uma esposa brilhante que, vivendo uma vida insatisfeita, projeta este descontentamento para todos que estão ao redor e vive pela casa descabelada, se refugiando na arte.



O filme é conduzido por um caminho curioso, por se tratar de uma obra de ficção sobre uma escritora real, Shirley Jackson. Apresenta um clima de desequilíbrio, sarcasmo, ódio, loucura e explora o relacionamento da escritora com seu marido, além do casal de hóspedes. O resultado é um filme paranoico, onde o delírio é regra, não exceção.

 

“Shirley” tem um bom potencial - poderia ser um êxito -, mas não floresce como deveria. A direção começa seguindo uma sensível linha entre ficção e realidade, porém acaba se perdendo ao enfatizar o relacionamento do casal. Possui um ritmo irregular, alguns personagens deveriam ser mais explorados, restando ao espectador um sentimento de vazio.


 

Elisabeth Moss está soberba, rouba todas as cenas, mas acaba por tirar o brilho dos outros personagens, já que eles deveriam ser complexos, porém não estão bem desenvolvidos.

 

O filme não é um desperdício de tempo, deve agradar os fãs de Moss, mas está longe de ser inesquecível.


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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=ueygMgdHcCw

LANÇAMENTO: 23 de maio de 2020 
DIREÇÃO: Craig Zobel 
ROTEIRO: Damon Lindelof e Nick Cuse 
ELENCO: Betty Gilpin; Ethan Suplee; Hilary Swank; Wayne Duvall...


SINOPSE: Doze estranhos acordam numa clareira. Eles não sabem o motivo de estarem ali, nem como chegaram. Tampouco sabem que foram escolhidos para um único propósito: A Caçada, um serviço de caça humana para elites privilegiadas.


AUTOR DO TEXTO: Victor Oliveira 

LETTERBOXD: https://letterboxd.com/Victorio_32/ 

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Assistir “A Caçada” é o exercício de um misto de emoções – vocês compreenderam mais a frente. Inicialmente, somos postos diante de uma narrativa intrigante e bem elaborada, estabelecendo parâmetros e fazendo emanar sensações de desconforto. Além disso, é um filme detentor de um sarcasmo e ironia muito eloquentes – saliente-se: poucos roteiristas no cinema são bons em trabalhar com sarcasmo de forma visceral e que nos faça sorrir de modo desconfortável com tal texto. Nesse sentido, com um tom de thriller angustiante, recheado de diálogos irônicos e cômicos que falam sobre a sociedade norte-americana, o filme consegue, a priori, manter o espectador completamente envolvido com a trama.



Contudo, é uma pena que isso só tenha ocorrido inicialmente, pois, gradativamente, o filme se perde na própria trama. Comumente, os filmes são como bolas de festa sendo enchidas, isto é, os filmes vão enchendo e sendo preenchidos internamente para nos conduzir para o grande ápice proposto pela trama – inclusive, há filmes que suscitam tantos elementos relevantes que “explodem nossas cabeças”, assim como se dá com a bola que é tão enchida que o ar não cabe dentro dela mesma (estes, podemos dizer que são as grandes obras-primas que não são suficientes dentro de si mesmas, extrapolando as barricadas que impedem e são o limite entre o bom e o excepcional). Assim, usando a metáfora da bola, esse filme é como uma bola que começou a ser enchida, mas, de alguma forma, ela não conseguiu encher completamente, ficando com aquele aspecto “triste” de bola enrugada que não conseguiu seu objetivo. 

 

Brincadeiras à parte, isso é o que temos nessa película. Ela faz o inverso da tendência comum de grandes filmes, ou seja, ao invés de ir se robustecendo de elementos que a tornem maior, ela vai perdendo o ar que tinha estabelecido, transformando-se em um belo “Cavalo Paraguaio” – só para manter o jogo de metáforas.

 


Nessas perspectivas, imaginar e pensar nos elementos fixados no primeiro ato - ainda um pouco trabalhados no segundo ato - e a conclusão da trama, torna a experiência ainda mais torturante do que se o filme já começasse ruim – na verdade, da forma que foi concluída a história, preferia que o filme já tivesse começado trazendo a sensação de desgosto, pelo menos o espectador teria noção do conteúdo que estava consumindo.

 

Quanto às atuações, não temos nada que extrapole o limite do genérico, sendo um filme mais interessante pela ambientação construída do que pelas atuações em especial. A única coisa que saltou aos olhos, em especial, foi a atuação horrenda de Hillary Swank no filme. Nossa, que personagem caricata – às vezes me pergunto o que aconteceu com aquela atriz que fez Menina de Ouro e Escritores da Liberdade.

 

Portanto, é um filme que começa com uma força e intensidade excelente, mas que acaba perdendo o norte na própria trama, entregando, ao final, um filme esquecível e desprezível, por ter uma conclusão tão tosca, irritante e insuportável. Assim, fazendo uma breve remissão ao início do texto sobre o misto de emoções, é um filme que faz o espectador sair da alegria, caminhar pela indiferença e encerrar com tristeza – infelizmente.    



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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=AdfF3C7xsns

LANÇAMENTO: 24 de julho de 2020 
DIREÇÃO: Jessica Swale 
ROTEIRO: Jessica Swale 
ELENCO: Gemma Arterton; Gugu Mbatha-Raw; Penelope Wilton; Tom Courtenay...


SINOPSE: Durante a Segunda Guerra Mundial uma mulher abre seu coração para um paciente, após ter resolvido inicialmente se livrar dele.


AUTORA DO TEXTO: Thais R. de Freitas 
TWITTER: https://twitter.com/Ruivaa?s=09 
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Uma escritora reclusa, a segunda guerra em curso e um jovem menino formam o início de narrativa desta produção inglesa. Primeiro longa dirigido por Jessica Swale, o filme é estrelado por Gemma Arterton, atriz, até então, mais conhecida por sua participação no filme da franquia 007, “007- Quantum of Solace”.

 

A leveza desta narrativa é um bom entretenimento para dias em que se busca um passatempo mais esperançoso. Apesar de um drama de guerra, a película permite nos mostrar perspectivas de certo modo inusitadas, num enredo que nos conduz a reflexões sobre as peças que o destino pode acabar por nos pregar, na convergência de destinos, história e acontecimentos da vida. 




Tudo começa quando a vida coloca um órfão refugiado dos bombardeios frequentes em Londres, sob a tutela da rabugenta escritora Alice, numa região localizada na zona rural do Reino Unido. Sem pedir para participar de qualquer programa de acolhimento de jovens, a escritora fica surpresa por ter sido contemplada nesta tutela e pede ao programa que, em uma semana, arrumem uma casa melhor para ficar com Frank. Como a vida não é feita de programações, em curto espaço de tempo, o menino de quem ela queria se livrar e evitar qualquer aprofundamento de relacionamento, cativa uma grande amizade e afeto com a escritora reclusa, contribuindo para que ela desista da entrega da guarda temporária do garoto para um novo lar.

 

Durante toda a narrativa, são introduzidos flashes sobre a memória da escritora. Neles observamos momentos felizes e variados, vividos na companhia da personagem Vera, interpretada pela atriz Gugu Mbatha-Raw, rosto conhecido de filmes e séries como Belle, The Morning Show, Easy e seu papel mais icônico no aclamado episódio de Black Mirror: San Junipero.

 

A partir dos flashes que nos permitem acessar as conexões entre o passado da escritora e a situação atual, o filme aprofunda nossa percepção sobre por qual razão o menino foi parar na tutela de Alice.




Spoiler Alert: É bonita a forma que a diretora mostra como foi o relacionamento de Alice e Vera, bem como a delicadeza ao mostrar que crianças não nascem com predicados de preconceitos - isso é embutido por meios sociais nos quais elas são criadas. Há naturalidade na medida certa para retratar o amor entre a escritora e a mãe de Frank, antes do nascimento dele, sem entrar em debate puramente social e até político direto. O filme consegue caminhar pela demonstração de que numa relação, muitas vezes, seguimos caminhos diferentes por expectativas diversas. O romance entre elas e a razão pela qual Vera preferiu não seguir com Alice, escolhendo casar com um homem para ter o filho biológico, que futuramente vai para a casa da escritora, é passível de entendimento das escolhas. Ainda assim, o filme rompe tabus ao falar de filhos em lares constituídos por casais homoafetivos, numa época em que não se falava da possibilidade de constituição de famílias por Lgbtq+, dentro de padrões sociais tradicionais. Essa abordagem de lares lgbtq+, com filhos, dão o toque essencial na concepção do longa.

 

É uma história ambientada nos anos 40, só que muito à frente de seu tempo. Claro que há um pouco de previsibilidade em algumas formas de condução dos elementos narrativos. No entanto, ainda assim, é uma graça ver e divagar na densidade deste drama leve de guerra. Um filme com graciosidade que vale assistir. 



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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=Gfc83zILo_I

LANÇAMENTO = 02 de janeiro de 2020
DIREÇÃO: Robert Eggers
ROTEIRO: Robert Eggers e Max Eggers
ELENCO: Robert Pattinson; Willem Dafoe; Valeriia Karaman

SINOPSE: Início do século XX. Thomas Wake (Willem Dafoe), responsável pelo farol de uma ilha isolada, contrata o jovem Ephraim Winslow (Robert Pattinson) para substituir o ajudante anterior e colaborar nas tarefas diárias.

AUTORA do TEXTO: Vanessa Paiva
INSTAGRAM: https://www.instagram.com/paivanvanessa/
LETTERBOXD: https://letterboxd.com/vanessapaiva/

Entre gaivotas, o mar, contos de marinheiro, dois sujeitos e um farol que é trabalhado o filme visualmente. A princípio achei um filme bastante silencioso - há bastante tensão no início do momento em que arparam o barco até os jantares iniciais. O filme evolui de uma maneira absurda, considero que além de inusitado ele é visceral - aquelas duas pessoas ali, convivendo cotidianamente sobre tensão, e toda aquela masculinidade reprimida e repressora, porque não?

Claro, ambientado em meados do século XX, a forma como as pessoas lidavam com seus sentimentos era indubitavelmente com muito distanciamento e discrição. Para mim, honestamente, ver dois seres confinados dia a dia presos em uma ilha, sem o luxo do convívio externo, é uma grande experiência sociológica. Há, sim, essa disputa insana por poder e por controle. Há períodos de aproximação, cooperação e, até, diversão, o que bem de longe me lembra um pouco Das Experiment (2001)[1], no contexto de confinamento, por que são filmes com propostas bem distintas, mas que retratam bem a dinâmica do convívio e isolamento.


Ali, são dois seres vivenciando o extremo, o que há de melhor e o que há de pior, permeando o desejo de forma intensa em suas vidas, seja pelo ocultamento, pelos segredos ou pela vontade, descobrimento e curiosidade. O contexto de “O Farol” pode ser enxergado pela ótica da filosofia sobre o caminho da iluminação. As facetas, ainda mais visíveis e assustadoras, pela impressão causada pela iluminação, e as cores preto e branco dão vida ao filme uma grande riqueza de detalhes para cada cena.

É um paradoxo! Há momentos que você pensa que são delírios dos personagens ou frutos da imaginação deles. O enredo gira em torno do escravo e seu mestre, essa relação que às vezes se confunde entre submissão e dependência, até porque um precisa do outro, seja para realizar a mais simples tarefa ou para não enlouquecer diante um quadro de isolamento intenso.

A luz e a escuridão são o centro de toda trama, assim como é o próprio Farol - ora faz luz ora faz sombra. Assim, a proximidade ou distância da luz demonstram o contraste e o perigo dos excessos. Também revela toda a dubiedade deixada pela relação de disputa dos dois, a complexidade humana, o medo da similaridade, o reflexo do desejo nos olhos do outro. Numa dessas zapeadas, achei uma referência interessante sobre esse filme - a Psicóloga Mariana Anconi, ao analisar o filme, diz: “O horror do filme consiste no horror ao corpo. O corpo invadido pelo outro. Uma proximidade que confunde e ultrapassa o espaço íntimo entre-dois a ponto de um deles não se reconhecer no mar de identificações construídas ao longo da vida e, ainda, quem sabe, dizer em algum ponto “me tornei quem eu mais temia…”⠀⠀


A essa reflexão e às cenas que incitavam o erotismo e a obsessão pela luz, refletem uma sede por saber, uma vontade de compreender o que está escondido e é proibido, mas essa mesma luz, quando próxima demais, pode ser fatal e esse, meus caros, pra mim, é a grande reviravolta do filme.

Pra mim, foi uma experiência filosófica bacana demais, me deixou de fato bem presa do início ao fim. A atuação do Dafoe simplesmente é incrível, a que mais impressionou no ano passado, diga-se de passagem. Robert Pattinson (me julguem) está melhorando a cada filme e nesse ele me surpreendeu. Intrigante, perturbador e estranho, o filme pode prender você ou pode fazer você detestá-lo - é o tipo ame ou odeie, não tem meio termo. Se eu fosse você, reservaria um tempo para conhecer essa belezinha da sétima arte, mas vá com a cabeça aperta e os ouvidos atentos, e aproveite a experiência, seja boa ou ruim, porque honestamente é sobre isso que o cinema é: experimentação. Afinal, nem toda sensação causada é pra ser boa, pode ser ruim também.




[1] Segundo o site Omelete, A experiência é baseado no romance Black Box, de Mario Giordano (que também assina o roteiro). Por sua vez, o livro tem como origem um incidente acontecido na prestigiada universidade norte-americana de Stanford em 1971. Foi lá que um grupo de pesquisadores teve de cancelar, depois de apenas 6 dias, uma experiência idêntica na qual estudantes se passaram por guardas e prisioneiros. O motivo foram os intensos efeitos psicológicos que a pesquisa teve tantos nas cobaias quanto nos cientistas. A versão ficcional de Hirschbiegel extrapola o assunto, com a proposta de verificar o que aconteceria se o processo não fosse cancelado antes de começar a dar errado.

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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=aJoGdiyvdYs
LANÇAMENTO: 29 de julho de 2020
DIREÇÃO: Jan Komasa
ROTEIRO: Mateusz Pacewicz
ELENCO: Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka...

SINOPSE: Um jovem, incitador do ódio nas redes sociais, passa a ter que lidar com grandes problemas na vida real.

AUTOR do TEXTO: Ed Kalume

Ao lermos um texto onde se encontram termos como "plágio", "fake news", "propagação do ódio", "manipulação" e "interesse de um grupo poderoso", parece que estamos lendo um jornal local ou de qualquer país do planeta, mas se trata de "Rede de Ódio", filme polonês, dirigido por Jan Komasa.

O filme é pertinente e relevante. Se quisermos observar um retrato da política atual e uma espécie de manual de como são formados perseguidores e perseguidos, este é um filme fundamental.


Tomek, um jovem carente na casa dos 20 anos, é expulso da faculdade por plágio, fica obcecado por uma jovem rica e consegue um emprego numa empresa de marketing. Nesta empresa, recebe a tarefa de destruir a reputação de um político liberal. 

A partir desse argumento, Komasa descreve uma sequência de frustração/decepção que gera ódio e vingança, pois os interesses dos poderosos são priorizados e um desprezo pelos demais vira norma. As notícias fakes moldam a sociedade, mas acabam cobrando um preço de intolerância, violência e morte.


O filme tem uma direção competente, fotografia com um tom pessimista e trilha sonora muito bem planejada, mesmo quando se silencia. Mas quem mais brilha em todo o filme é Maciej Musialowski, ator polonês de 26 anos ainda em início de carreira. 

O filme cumpre seu propósito, prendendo o espectador por suas mais de duas horas de projeção. Vale muito conferir.

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TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=8vtU1Oikx84

LANÇAMENTO: 13 de agosto de 2020
DIREÇÃO: Rebecca Zlotowski
ROTEIRO: Rebecca Zlotowski e Teddy Lussi-Modeste
ELENCO: Mina Farid, Zahia Dehar, Benoît Magimel...      

SINOPSE: Durante um verão em Cannes, uma adolescente é atraída pelo estilo de vida de sua prima, iniciando uma jornada de autoconhecimento e diversas aventuras.

AUTOR do TEXTO: Eliezer Lugarini

O feminismo está em voga, cada dia mais, tanto em intensidade quanto em ativismo - ouso dizer que o assunto nunca foi démodé, desde que me conheço por gente, nos meus 36 anos recém-completados de vida. Movimento que surgiu nos 60, mas que não parece ter atingido seu ápice ainda, já que sua tendência de crescimento me parece nítida.

Já de antemão, e baseado na opinião única e exclusiva da minha esposa (alguns reclamarão que não posso chamar uma mulher de minha, já que não existe posse de uma mulher), me coloco na posição de um machista (afinal de contas, para ela, pelo menos, todos os homens são), para tecer comentários sobre “A Prima Sofia”, que estreou recentemente na Netflix.


Logo de cara, uma das grandes sacadas do filme é posicionar sua visão de acordo com o olhar subjetivo de cada espectador. Assim sendo, “A Prima Sofia” consegue a proeza de ser taxado de manifesto machista e feminista ao mesmo tempo.

“A Prima Sofia” é o retrato cotidiano de uma lembrança de duas primas que vivem um breve verão em Cannes. Naimaa (Mina Farid), com 16 anos e se deparando com a saída do colegial e a aproximação à vida do trabalho, busca um estágio em gastronomia, enquanto seus desejos profissionais se misturam com a vontade natural de uma adolescente em desfrutar a vida. Sofia (Zahia Dehar) - a prima, idade desconhecida, proveniente da cidade grande de Paris - encontra Naimaa, uma parceira para sua estada de verão.

Sofia, sendo elemento transformador e uma garota bela de corpo escultural, esbanja sensualidade, é provocadora e muito ciente do efeito que seu corpo causa nos homens. Seu espírito é aventureiro e sua visão nada romantizada sobre o amor é sim uma válvula para alcance de diversas regalias e luxúria. Como citei acima, muitas pessoas adeptas ao feminismo julgarão a personagem e seu retrato como um desserviço a tudo que o feminismo tem lutado contra durante 50 anos - o papel da mulher como objeto. É fato, bem como é fato, existem diversas Sofias mundo afora.


Ao decorrer da projeção, Naimaa vai, aos poucos, se afeiçoando ao estilo de vida livre e desapegado de Sofia - os sentimentos nunca são explicitados, mas é nítido que de certa forma ambas sentem atração pela vida alheia.

A câmera da diretora Rebbeca Zlotowski passeia pelo conto das duas primas sem juízo de valor. Não estamos falando de uma crítica ácida ao uso do corpo, nem ao glamour ou à luxúria de Sofia e dos homens que a rodeiam, quanto menos há um olhar vitimizado sobre a posição de Sofia na sociedade. Ela é livre, desinibida, sem amarras, sem responsabilidades, sem culpas. Zlotowski deixa o julgamento para o espectador. É você, caro leitor, quem vai decidir se o que vemos em tela é machismo, feminismo ou apenas o fetiche do vazio. É neste ponto que você deve olhar para si mesmo e conceber quais são seus preconceitos estabelecidos, afinal de contas, não há nada de errado nos rumos que Sofia escolhe para si mesma.

Por óbvio que “A Prima Sofia” foi e será altamente criticado primeiramente pelos sensores do pudor, que não concebem cena de sexo sob hipótese alguma, depois pelas feministas, que verão um absurdo retrato da exploração do corpo feminino como objeto. E, mais para frente, pelos machistas, por não conceberem o fato de que uma mulher possa viver a vida da melhor forma que lhe cabe. Não obstante, obviamente, por grande parte do público da Netflix, que cairá de paraquedas em um conto cotidiano que não tem um monte “plot twists” incabíveis tão típicas de suas séries originais. Enfim, as regalias dos tempos modernos, quando aprendemos a defender fervorosamente nossos pontos de vistas, mas esquecemos de aprender como sermos tolerantes com o pensamento alheio.

“A prima Sofia” é um filme dos dias atuais que referencia por demais o cinema de Eric Rohmer, demonstrando de forma leve, porém um tanto crítica, aquilo que move os anseios da juventude numa mescla de inocência e puerilidade, bem como deslumbre pela futilidade e vulgaridade do ser humano. No fim das contas, torna-se uma ode à liberdade. Nesse sentido, certo mesmo é que devemos nos livrar de todo e qualquer julgamento que costumamos tecer sobre a vida alheia. Este é o maior recado de ”A Prima Sofia”.

REFERÊNCIAS


TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=fwu2uFY_xSU