
LANÇAMENTO: 05 de abril de 2018
DIREÇÃO: Affonso Uchoa
e João Dumans
ROTEIRO: Affonso Uchoa
e João Dumans
ELENCO: Aristides de
Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral...
SINOPSE: Vida
e morte de um operário brasileiro. Road movie acompanhando dez anos da vida de
Cristiano, que vive de cidade em cidade em busca de trabalho, perdendo amigos e
namoradas, com a Vila Operária sendo seu ponto final.
AUTORA do TEXTO: Vanessa Paiva
Há
algo de bucólico e muito singelo em Arábia, talvez um sentimento de
pertencimento, uma proximidade com a realidade que presencio no interior de
Minas. Neste filme, o que é realmente belo é a simplicidade com que a história
é contada, a verdadeira tristeza e alegria do encontro com o cotidiano.
Aqui
não há atuações extraordinárias, até por que não faria muito sentido a esse
estilo orgânico que o diretor provavelmente pretende. O personagem soturno de Cristiano
nos proporciona uma viagem através de suas memórias pelas cidades e lugares onde
viveu, assim como das pessoas que conheceu e se relacionou com as idas e vindas
nessa vida.

A
trilha sonora corrobora para a sensação nostálgica. A riqueza de detalhes é
impressionante, o sotaque mineiro, os causos, o truco, os jogos de bola, o galo
cantando ao fundo, os pássaros e grilos. Na minha visão são uma pausa, um
respiro no meio de filmes com grandes atores, superproduções e muitos efeitos
sonoros. A narração feita por Cristiano é um convite à imersão
naquela vivência, às vezes dura e às diversas vezes injusta, mas com suas
belezas. O cenário modesto demonstra a vida simples que ele leva, para não
dizer indigna.

Acredito
que o filme relata sobretudo sobre sobrevivência, afinal o personagem se deixou
levar pela vida, por empregos, em relacionamentos e nas cidades. Sempre na
estrada na busca de um recomeço, mas a verdade é que a cada parada ele se
perdia um pouco e a solidão passou a ser uma grande companheira. Há também uma
intensa reflexão sobre a vida de trabalhadores braçais que são a força motriz
das empresas desse país, como suas vidas não são valorizadas e desperdiçadas.
A
essência da película tem uma profunda relação com o existencialismo, seja como
o diretor retrata a condição de vida e abandono de Cristiano seja através
das palavras que o personagem deixa escritas em um caderno. A busca por um
significado é a reflexão sobre sua existência, sendo, as consequências do
trabalho braçal, as causas de seus questionamentos. Isso posto, vem a parte
mais triste - o silêncio brutal -, demonstrando o abismo de dúvidas que o
personagem se encontra e uma escuridão que toma conta de tudo, restando só a
face descoberta de Cristiano - para mim, talvez seu confrontamento com seu lado
oprimido.
Particularmente,
o filme me tocou muito e o indico principalmente àqueles que têm verdadeiro
apreço por vidas humanas e empatia para olhar as intimidades do outro sem
julgamento. Um ponto para a mineiridade, mais um ponto por nos fazer questionar
o fato de como as pessoas são negligenciadas pelo mundo e suas esperanças viram
migalhas. Um filme digno a bons observadores, indicadíssimo.

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