ARÁBIA

By | junho 08, 2020 Leave a Comment


LANÇAMENTO: 05 de abril de 2018
DIREÇÃO: Affonso Uchoa e João Dumans
ROTEIRO: Affonso Uchoa e João Dumans
ELENCO: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral...



SINOPSE: Vida e morte de um operário brasileiro. Road movie acompanhando dez anos da vida de Cristiano, que vive de cidade em cidade em busca de trabalho, perdendo amigos e namoradas, com a Vila Operária sendo seu ponto final.

AUTORA do TEXTO: Vanessa Paiva

Há algo de bucólico e muito singelo em Arábia, talvez um sentimento de pertencimento, uma proximidade com a realidade que presencio no interior de Minas. Neste filme, o que é realmente belo é a simplicidade com que a história é contada, a verdadeira tristeza e alegria do encontro com o cotidiano.

Aqui não há atuações extraordinárias, até por que não faria muito sentido a esse estilo orgânico que o diretor provavelmente pretende. O personagem soturno de Cristiano nos proporciona uma viagem através de suas memórias pelas cidades e lugares onde viveu, assim como das pessoas que conheceu e se relacionou com as idas e vindas nessa vida.





A trilha sonora corrobora para a sensação nostálgica. A riqueza de detalhes é impressionante, o sotaque mineiro, os causos, o truco, os jogos de bola, o galo cantando ao fundo, os pássaros e grilos. Na minha visão são uma pausa, um respiro no meio de filmes com grandes atores, superproduções e muitos efeitos sonoros. A narração feita por Cristiano é um convite à imersão naquela vivência, às vezes dura e às diversas vezes injusta, mas com suas belezas. O cenário modesto demonstra a vida simples que ele leva, para não dizer indigna.




Acredito que o filme relata sobretudo sobre sobrevivência, afinal o personagem se deixou levar pela vida, por empregos, em relacionamentos e nas cidades. Sempre na estrada na busca de um recomeço, mas a verdade é que a cada parada ele se perdia um pouco e a solidão passou a ser uma grande companheira. Há também uma intensa reflexão sobre a vida de trabalhadores braçais que são a força motriz das empresas desse país, como suas vidas não são valorizadas e desperdiçadas.

A essência da película tem uma profunda relação com o existencialismo, seja como o diretor retrata a condição de vida e abandono de Cristiano seja através das palavras que o personagem deixa escritas em um caderno. A busca por um significado é a reflexão sobre sua existência, sendo, as consequências do trabalho braçal, as causas de seus questionamentos. Isso posto, vem a parte mais triste - o silêncio brutal -, demonstrando o abismo de dúvidas que o personagem se encontra e uma escuridão que toma conta de tudo, restando só a face descoberta de Cristiano - para mim, talvez seu confrontamento com seu lado oprimido.

Particularmente, o filme me tocou muito e o indico principalmente àqueles que têm verdadeiro apreço por vidas humanas e empatia para olhar as intimidades do outro sem julgamento. Um ponto para a mineiridade, mais um ponto por nos fazer questionar o fato de como as pessoas são negligenciadas pelo mundo e suas esperanças viram migalhas. Um filme digno a bons observadores, indicadíssimo.

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